terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Engana que eu gosto

Ed René Kivitz

 

 

Engana que eu gosto

As culturas devem ser lidas nas linhas e entrelinhas. As linhas falam da coisa em si. As entrelinhas falam do espírito da coisa. As entrelinhas podem distorcer e até mesmo destruir o que está dito nas linhas.
Com a cultura cristã não é diferente. Veja o exemplo da assinatura da Igreja Universal do Reino de Deus, a saber, Jesus Cristo é o Senhor. De acordo com o Novo Testamento, isso significa que devemos viver como escravos dos propósitos de Jesus Cristo: ele manda e a gente obedece, ele propõe e a gente executa, ele dirige e a gente segue, pois afinal de contas, Ele é o Senhor. Mas na cultura da IURD, e de boa parte do movimento evangélico, as entrelinhas dessa afirmação fazem com que ela signifique que Jesus pode realizar todos os seus desejos, afinal de contas Ele é o Senhor. A relação fica invertida: você clama e ele responde, você reivindica e ele atende, você pede com fé e ele lhe dá o que foi pedido, você participa da corrente de oração e se submete aos 318 pastores e Jesus faz a sua vida próspera e confortável, pois Jesus Cristo é o Senhor e você é “filho do rei”, de modo que não há qualquer motivo para que você continue nessa vida miserável, daí a segunda convocação da IURD: “para de sofrer”.
Percebe como as linhas dizem uma coisa e as entrelinhas dizem outra?

O movimento evangélico é mestre em fazer confusão e promover distorção do Evangelho em virtude desse jogo de linhas e entrelinhas. Um exemplo disso é a mensagem VAI DAR TUDO CERTO, que recebi outro dia.

Eis a mensagem:
SALMO 22
VAI DAR TUDO CERTO

DEUS me pediu que te dissesse que tudo irá bem contigo a partir de agora. 
Você tem sido destinado para ser uma pessoa vitoriosa e conseguirá todos teus objetivos.
Nos dias que restam deste ano se dissiparão todas as tuas agonias e chegará à vitória. 
Esta manhã bati na porta do céu e DEUS me perguntou… 
’Filho, que posso fazer por você ?’ 
Respondi: 
’Pai, por favor, protege e bendiz a pessoa que está lendo esta mensagem’.
DEUS sorriu e confirmou: ‘Petição concedida’. 
Leia em voz baixa… 
’Senhor Jesus : 
Perdoa meus pecados. 
Amo-te muito, te necessito sempre, estás no mais profundo de meu coração, cobre com tua luz preciosa a minha família, minha casa, meu lugar, meu emprego, minhas finanças, meus sonhos, meus projetos e a meus amigos’. 
Passe esta oração a 5 pessoas, no mínimo. 
Receberás um milagre amanhã. 
Não o ignore.

Deus tem visto suas Lutas.
Deus diz que elas estão chegando ao fim.
Uma benção está vindo em sua direção.
Se você crê em Deus, por favor envie esta mensagem para 20 amigos.
Se acredita em Deus envia esta mensagem a 20 pessoas,
se rejeitar lembre Jesus disse:
“se me negas entre os homens, te negarei diante do pai” Dentro de 4 minutos te dirão uma notícia boa.
Deixo de lado a crítica gramatical e o péssimo uso da lingua portuguesa. Dedico minha atenção ao conteúdo da mensagem que, travestida de cristã, é absolutamente anti-cristã: mentirosa, fantasiosa, desprovida de qualquer sentido bíblico, desalinhada com o todo do ensino e experiência de Jesus, seus apóstolos, e seus primeiros seguidores, totalmente alinhada com os dircursos baratos da auto-ajuda e da enganação religiosa, enfim, uma versão barata e piedosinha da superstição sincrética do espiritualismo popular.
A afirmação “vai dar tudo certo”, lida de acordo com as linhas do Novo Testamento, significaria, por exemplo, que os propósitos de Deus prevalecerão, a marcha da igreja de Jesus Cristo contra os poderes do mal será vitoriosa, a vontade de Deus será um dia feita na terra como o céu. Mas também significaria que os seguidores de Jesus seriam sempre ovelhas em meio aos lobos [Mateus 10.16], odiados pelo sistema sócio-político-econômico anti-reino de Deus, ameaçados de morte, rejeitados, caluniados, e perseguidos por causa do nome de Jesus [Mateus 5.10-12], e passariam por muito sofrimento e tribulação antes de receberam a vitória plena no reino leterno de Deus [Atos 14.22]. Isto é, antes de dar tudo certo, daria tudo errado.
A convicção de que “em Cristo somos mais que vencedores” [Romanos 8.37], e que “em Cristo Deus sempre nos conduz em triunfo” [2Coríntios 2.14], é também acompanhada de uma profunda compreensão a respeito dos custos de se colocar ao lado de Deus e do reino de Deus, em oposição à injustiça e aos agentes promotores e mantenedores da morte no mundo: ”Porque me parece que Deus nos colocou a nós, os apóstolos, em último lugar, como condenados à morte. Viemos a ser um espetáculo para o mundo, tanto diante de anjos como de homens. Nós somos loucos por causa de Cristo, mas vocês são sensatos em Cristo! Nós somos fracos, mas vocês são fortes! Vocês são respeitados, mas nós somos desprezados! Até agora estamos passando fome, sede e necessidade de roupas, estamos sendo tratados brutalmente, não temos residência certa e trabalhamos arduamente com nossas próprias mãos. Quando somos amaldiçoados, abençoamos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, respondemos amavelmente. Até agora nos tornamos a escória da terra, o lixo do mundo” 
[1Coríntios 4.9-13].
Fica, portanto, muito evidente que quando os cristãos do Novo Testamento diziam que “vai dar tudo certo” estavam afirmando coisas completamente diferentes dessas afirmadas na mensagem que recebi pela internet, que diz:

”Tudo irá bem contigo a partir de agora”; “Você tem sido destinado para ser uma pessoa vitoriosa e conseguirá todos teus objetivos”; “Nos dias que restam deste ano se dissiparão todas as tuas agonias e chegará à vitória”; “Cobre com tua luz preciosa a minha família, minha casa, meu lugar, meu emprego, minhas finanças, meus sonhos, meus projetos e a meus amigos”; “Receberás um milagre amanhã”; “Uma benção está vindo em sua direção”; “Dentro de 4 minutos te dirão uma notícia boa”.
Meu amigo, minha amiga, não é verdade que “tudo irá bem contigo a partir de agora”, e também não é verdade que “você tem sido destinado para ser uma pessoa vitoriosa e conseguirá todos teus objetivos”. Não se iluda, pois não é verdade que “nos dias que restam deste ano se dissiparão todas as tuas agonias e chegará à vitória”. Preste atenção: o compromisso cristão não suplica que Deus cubra com sua luz “minha família, minha casa, meu lugar, meu emprego, minhas finanças, meus sonhos, meus projetos e a meus amigos”. Na verdade, o compromisso cristão exige que você deixe de viver para seus sonhos, seus planos e seus projetos e passe a viver para Deus, pois, como ensina a Bíblia, “o amor de Cristo nos constrange, porque estamos convencidos de que um morreu por todos; logo, todos morreram. E ele morreu por todos para que aqueles que vivem já não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que por eles morreu e ressuscitou“ [2Coríntios 5.14,15], e justamente por isso é que quem deseja seguir a Jesus deve lmebrar o que Jesus disse:

”Se alguém quiser acompanhar-me, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida a perderá, mas quem perder a sua vida por minha causa, a encontrará. Pois, que adiantará ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma? Ou, o que o homem poderá dar em troca de sua alma?” [Mateus 16.24-26].
Também não é verdade que “receberás um milagre amanhã” e que “dentro de quatro minutos te dirão uma notícia boa”.

Pelo amor de Deus, jogue fora esse evangelho açucarado, que promete o que Deus jamais prometeu, e gera falsas esperanças nas pessoas. Respeite o sofrimento e a dor das milhares de pessoas que, apesar de sua fé, e talvez justamente por causa de sua fé, passam fome, não têm mínimas condições de sobrevivência, sofrem as consequências de tragédias pessoais e fatalidades naturais, são vítimas de um sistema político e econômico cruel, que as condena à escravidão e a uma vida sem futuro. Lembre dos cristãos que vivem na África, na Índia, na América Latina, e nos rincões miseráveis do Brasil. Seja solidário com as minorias: os negros escravizados, as mulheres violentadas, as crianças abusadas, as populações indígenas dizimadas, os refugiados de guerra, os perseguidos políticos, os desaparecidos. Respeite a grandeza dos cristãos perseguidos e mortos sob a tirania do fundamentalismo terrorista islâmico (diferente do Islã) e dos regimes políticos ateístas. Pense um pouco se essa mensagem “vai dar tudo certo, todos os seus sonhos se realizarão, você vai receber um milagre amanhã” faz algum sentido na ala infantil do Hospital do Câncer, no campo de refugiados (mutilados) de Angola, ou nos casebres secos do sertão brasileiro.
Construa sua fé sobre um alicerce mais sólido. Por exemplo, o Salmo 22, aviltado com essa mensagenzinha “vai dar tudo certo”. Aliás, é bom lembrar que Bíblia não é um livro que pode ser manuseado por qualquer pessoa, de qualquer jeito. Da mesma maneira que não é qualquer pessoa que pode dar palpite a respeito do direito, de medicina, da engenharia, ou do marketing, também a teologia exige um mínimo de preparo, senão, muito preparo mesmo. Digo isso porque talvez o autor dessa mensagenzinha não saiba que o Salmo 22 é um dos Salmos messiânicos, que profetiza o sofrimento e o fracasso do Messias, que foi (1) abandonado por Deus e pelos homens [Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste? Por que estás tão longe de salvar-me, tão longe dos meus gritos de angústia? Meu Deus! Eu clamo de dia, mas não respondes; de noite, e não recebo alívio! Não fiques distante de mim, pois a angústia está perto e não há ninguém que me socorra], (2) rejeitado [Mas eu sou verme, e não homem, motivo de zombaria e objeto de desprezo do povo], (3) insultado [Caçoam de mim todos os que me vêem; balançando a cabeça, lançam insultos contra mim], (4) dilacerado pela dor que lhe foi brutalmente imposta [Como água me derramei, e todos os meus ossos estão desconjuntados. Meu coração se tornou como cera; derreteu-se no meu íntimo. Meu vigor secou-se como um caco de barro, e a minha língua gruda no céu da boca; deixaste-me no pó, à beira da morte. Cães me rodearam! Um bando de homens maus me cercou! Perfuraram minhas mãos e meus pés], e por fim (5) cuspido na cara e crucificado como impostor.

Para esse Messias não deu nada certo. Ele não recebeu uma boa notícia quatro minutos após sua agonia no Getsêmani, e também não recebeu um milagre no dia seguinte. No dia seguinte foi crucificado.
Mas esse Messias, apresentado pelo profeta como “homem de dores, que sabe o que é padecer” [Isaías 53], “Deus exaltou à mais alta posição e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus Pai” [Filipenses 2.9-11]. Isso sim é dar tudo certo.
Provavelmente alguém vai dizer que é isso o que a mensagenzinha quis dizer. Mas não foi. Nas linhas, pode ter sido. Mas no contexto da religiosidade popular e da subcultura evangélica, a mensagenzinha sugeriu que “os seus sonhos e os seus projetos” darão certo, e que você pode esperar para amanhã aquela resposta milagrosa de Deus para resolver seus problemas e dificuldades particulares, e que em quatro minutos você vai receber uma notícia boa, muito provavelmente trazendo a você uma benção na forma de conforto e prosperidade.
Em síntese, a mensagenzinha pode ser interessante, pode trazer uma esperança e um conforto para quem está lutando contra um sofrimento ou uma dificuldade medonha, e pode até mesmo trazer um alívio do tipo “eu sei que não é bem assim, mas é bom pensar que é, ou acreditar que pode ser”. Mas definitivamente essa mensagenzinha não tem nada a ver com o Evangelho de Jesus Cristo

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Deus e deuses


Deus e deuses

Quando uma pessoa me diz que não acredita em Deus ou afirma categoricamente que Deus não existe, pergunto: De que Deus você está falando? Isso é necessário, pois dependendo do Deus referido eu também não acredito. A hipótese de que por detrás de nomes diferentes, como Alá e o Deus de Jesus, todos nós adoramos e veneramos a um único e mesmo Deus, e que só o reconhecimento desse fato pode nos trazer a paz entre as religiões e civilizações, é contestada por Jung Mo Sung: “Se é verdade que por detrás de nomes diferentes que nomeiam a Deus, ou deuses, nós adoramos a um único e mesmo Deus, deve ser também verdade que por detrás de diversas imagens de Deus dos cristãos adoramos e veneramos ao mesmo e o único Deus. Entretanto, eu tenho muita dificuldade para aceitar e acreditar que por detrás do nome de Deus de Jesus Cristo invocado para legitimar os massacres contra os indígenas na América Latina ou para legitimar torturas nas ditaduras militares esteja o mesmo Deus invocado pelas vítimas ou cristãos que morreram lutando contra os massacres ou torturas. Pois, se assim fosse, não haveria o problema das falsas imagens de deuses e nem o da idolatria. Todas as imagens de Deus de Jesus invocadas – sejam para matar os inocentes (imagem sacrificial de deus), sejam para defender as vítimas (Deus que pede misericórdia, ao invés de sacrifício; Mt 9,13) – remeteriam a um único e verdadeiro Deus. E, portanto, não haveria uma diferença qualitativa entre elas. O que é logicamente um absurdo e teologicamente um erro. Se nem os cristãos, quando usam o nome do Deus de Jesus, estão se referindo a um único e mesmo Deus, como podemos dizer que por detrás de diversos nomes divinos de diversas religiões está um único e o mesmo Deus? Com esse questionamento eu não estou defendendo a idéia de que existem realmente diversos Deuses – e que assim o politeí¬smo estaria certo e o monoteísmo errado -, muito menos a tese de que o cristianismo é a única religião que conhece, adora e anuncia o único Deus verdadeiro. O que eu quero apontar é que as “coisas” são muito mais complexas do que essa equação que, aparentemente, simplifica e facilita o diálogo religioso e a construção de paz no mundo. Hoje, as guerras no Oriente Médio são feitas ou legitimadas, em boa medida, em nome da vontade divina. Só que por detrás de “deus de Bush” ou do “deus do Al-Qaeda” não está o único e o mesmo Deus. Os defensores da “guerra santa” – dos mundos cristão, judaico ou islâmico – o fazem em nome das imagens de deus que eles veneram. Só que a imagem de deus não é Deus! Quem mata em nome da imagem de deus confunde a imagem com o próprio Deus e comete, segundo a tradição bíblica, o pecado da idolatria. O problema é que nós não podemos conhecer a Deus como ele é, somente as imagens que fazemos dele”. A esse entendimento de Jung Mo Sung, acrescento minha convicção de que qualquer imagem a respeito de Deus encontra em Jesus Cristo seu gabarito e padrão para validação. “Jesus Cristo é a imagem do Deus invisível”, como bem disse Paulo apóstolo. Pois Jesus “é o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades. Tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo, da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência. Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse” (Colossenses 1.15-19). Nisto consiste a fé cristã: enxergar Deus através de Jesus, na verdade, enxergar Deus em Jesus, o que, necessariamente, nos coloca de joelhos diante de Jesus Cristo, em adoração ao próprio Deus.

Religião e Espiritualidade

Religião e Espiritualidade

Espiritualidade é a experiência humana do sagrado, transcendente, divino. Religião é a maneira como o ser humano organiza e vivencia esta experiência. Espiritualidade é uma experiência humana universal. Religião é uma experiência humana condicionada a dogmas, ritos, códigos morais e grupos de pessoas que acreditam nas mesmas coisas e celebram sua espiritualidade da mesma maneira. As religiões mais conhecidas no mundo são Judaísmo, Cristianismo, Islamismo, Hinduísmo e Budismo. A espiritualidade é o que os seres humanos têm em comum. Por exemplo, tanto o Dalai Lama quanto o Papa Bento XVI têm uma espiritualidade, mas têm religiões diferentes. Um é budista e outro é cristão. Em termos simples, assim como o ser humano tem corporeidade (relação com o corpo) e racionalidade (relação com a mente), também tem espiritualidade (relação com as realidades espirituais). Religião é maneira como cada ser humano desenvolve e pratica sua espiritualidade. Espiritualidade tem a ver com os atributos do espírito humano: razão, emoção, volição, consciência e auto-consciência. Religião está relacionado ao mundo dos espíritos, geralmente supra humanos. Espiritualidade é aquilo referente às virtudes do espírito: amor, compaixão, solidariedade, generosidade, perdão e justiça. Religião trata mais das regulações morais, objetivas, em detrimento das virtudes subjetivas.

Dentro de cada religião existe um número variado de maneiras de vivenciar a espiritualidade. Por exemplo, no Cristianismo a espiritualidade pode ser vivida de uma forma Católica Romana e outra Protestante, e mesmo dentro do Protestantismo, existem ramificações como o protestantismo histórico, o pentecostalismo e o neo-pentecostalismo. No Brasil, os protestantes ficaram conhecidos como “evangélicos”. Isto é, “evangélico” é um ramo do protestantismo, que por sua vez é um ramo do Cristianismo, que por sua vez é uma das cinco grandes religiões. Ser “evangélico”, portanto, é uma forma de viver a espiritualidade cristã, e nesse caso podemos dizer que existe uma “espiritualidade cristã evangélica”. O grande desafio é perceber quando uma religião ajuda e quando atrapalha o desenvolvimento espiritual. Ou mesmo, e principalmente, no meu caso que sou cristão, que versão do Cristianismo vai pautar a minha espiritualidade.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Jesus ainda é o caminho?

“Respondeu-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim” – João 14.6

Um dos mais graves problemas para a igreja de Cristo é a perda da visão da exclusividade da salvação pela graça por meio da fé em Jesus. Teoricamente, cremos que só Jesus Cristo salva, mas na prática, essa declaração não permeia a vida de muitas igrejas. A crença na salvação exclusivamente por meio de Jesus deveria produzir uma ardorosa visão evangelística e missionária. Cristo seria o carro-chefe da igreja e a mensagem do Cristo crucificado, poder de Deus para salvação de todo aquele que crê, seria a tônica da pregação. Estranhamente, porém, boa parte das igrejas tem se escondido no Antigo Testamento, trazendo para o culto arca, shophar (esta é a nova grife!), quipá, estrela de Davi, etc. São igrejas evangélicas que baniram o evangelho e recuperaram o sistema veterotestamentário. Sua leitura da Transfiguração deve ser que o Pai retirou Jesus de cena, deixando Moisés e Elias, e declarou: “Estes são os meus Filhos amados em que me comprazo; a eles ouvi”.

Alguns parecem ter banido Jesus Cristo de sua própria igreja. É uma negação de sua pessoa e sua obra. Tal atitude se encaixa perfeitamente na declaração do autor de Hebreus: estão pisoteando o Filho de Deus, e caíram da graça. Não entendem que o judaísmo se esgotou. O vinho velho acabou. As talhas de purificação estão vazias. Só Jesus, o Filho de Deus, tem poder para produzir novo vinho, e de qualidade superior. A exclusividade da salvação pela fé em Cristo tem se perdido no arsenal de truques e novidades para engabelar os crentes, dando-lhes a sensação de estarem seguindo a Bíblia. Mas o preço é alto: sem Cristo. A cruz é um estorvo para muitos cristãos. Eles querem bênçãos e poder, mas não a cruz. Querem riquezas, mas não o caminho do sofrimento com e por Cristo. Cantam “quero subir o monte santo de Sião”, não o monte do Calvário. Esqueceram-se que o caminho é Jesus, não o louvor nem o Espírito Santo (identificado com seus sentimentos).

Outros estão olhando pelo outro lado do microscópio. Ao invés de analisar a cultura secular pela Bíblia, analisam-na por pensadores seculares. Adotam o inclusivismo soteriológico. Jesus salva, mas Buda também, Maomé também. Qualquer um também. Gente bem intencionada está salva. O que vale é a sinceridade. Outros nem crêem que haja alguma coisa de que ser salva. A igreja é apenas uma instituição social ou recreacional.

Ouço e leio muito a expressão “o olhar do outro” (frasezinha bonita!), no tocante à verdade espiritual. Não posso deixar de perguntar: “E o olhar de Jesus, onde fica? As declarações de Jesus, onde ficam?”.

Quando fui evangelizado aos catorze anos aprendi isso: “Jesus não disse que é um caminho, mas o caminho”. Compreendi que o único meio de se chegar a Deus é por ele. Mas segmentos de sua igreja não falam do caminho para Deus, e sim de um caminho tranqüilo por esta vida. Deus se tornou do tamanho das pessoas, porque sua vontade para conosco ficou associada ao bem-estar material. Todo desejo dele para nós é que nos demos bem nos negócios aqui. O propósito de Deus para nós é uma boa vida, e Jesus é apenas um nome que se usa na frase final de qualquer oração, como se fosse uma senha para garantir nosso pedido. Mas a igreja não é mais dele.

Precisamos voltar a Jesus, deixando Moisés e Elias de lado. Jesus disse: “A lei e os profetas vigoraram até João; desde então é anunciado o evangelho do reino de Deus, e todo homem forceja por entrar nele” (Lc 16.16). Voltemos a pregar que só Jesus Cristo salva, que ele é único caminho para o céu, que ser gente boa é bom, mas isso não salva. Aprendi adolescente, e não esqueci: Jesus é o único caminho para o Pai. Quando a igreja deixa aberta a possibilidade de outro Salvador, ou deixa de falar do Salvador, nega ao Senhor. E negou-se a si mesma. Não há “olhar do outro” para salvação. Só há Jesus. Não há outro caminho. Jesus é o único. Nem Moisés, nem Elias, só Jesus. Nem shophar, nem quipar, nem arca. Só a cruz. Fora do Cristo crucificado não há caminho.

Pr. Isaltino Gomes Coelho Filho

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

LIÇÕES DO COMPLEXO DO ALEMÃO


Durante anos as forças de segurança do Estado do Rio de Janeiro, não compartilhavam nada, sei muito disso, pois fiz parte deste grupo. Quando havia operações conjuntas, ninguém cedia a Polícia Civil queria o comando, a primazia, a Militar a Federal e as demais forças do mesmo modo, com isso quem perdia era a sociedade. O mal começou a imperar em várias comunidades enquanto aqueles de deveriam promover a paz brigavam entre si, buscavam o seu espaço e chegamos onde o mundo viu. Não suportando mais tamanha violência houve um clamor público e um fato inédito ocorreu, houve união entre as forças de segurança, e o que para muitos era impossível aconteceu, o bem venceu o mal. Ao ver aqueles homens fugindo desesperados, libertando aquela comunidade que vivia escravizada pelo tráfico, pensei parece à igreja. Ao ler está crônica alguns podem pensar: Como parece a Igreja?  O Senhor Jesus nos garantiu que: “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela;”  Mateus 16:18 .  Hoje vivemos um evangelho divido cada qual quer marcar o “seu território” é difícil acharmos igrejas que cooperam e compartilham com outras, mas graças ao bom Deus que ainda existem tais igrejas, enquanto homens perdem tempo indo à televisão e ao rádio falar mal deste ou de outro pastor, falar que “a sua Igreja é a melhor, que a sua Igreja faz...” o povo tem morrido sedento de fome do verdadeiro evangelho que é o amor. Penso que é hora de refletirmos, nos unirmos para levar a paz a todos que precisam e querem, é necessário uma união das “forças da Paz” para resgatarmos almas que estão aprisionadas pelo inferno, para que o inimigo bata em retirada em nome de Jesus, a igreja deve ser militante sair do seu conforto, sair do holofote e arrombarmos as portas do inferno em nome de Jesus e libertarmos os que lá estão aprisionados.
          “Que o Senhor nos dê sabedoria e altruísmo para tal”

Pr. Celmir Guilherme Moreira Ribeiro
Pastor da PIB em Fragoso e Interino na SIB em Magé.

sábado, 13 de novembro de 2010

PARABÉNS DIÁCONOS - Prazer em servir

Prazer em servir
Instituído no Novo Testamento, o ministério diaconal é dos mais prestigiados nas igrejas evangélicas

AUTORIA - Rafael Chinaglia Leite, 22 anos, é diácono da Igreja Apostólica Renascer em Cristo há dois anos- Extraído da Revista EClésia

Começa o culto. Durante as leituras devocionais e os cânticos, alguns homens engravatados observam a movimentação com olhos atentos. Cada pessoa que chega é abordada e encaminhada aos lugares disponíveis. Na hora do ofertório, alguns deles circulam entre o povo recolhendo os donativos, enquanto outros sobem ao púlpito para dar avisos à congregação. A reunião prossegue, e enquanto os crentes concentram-se na pregação, eles precisam estar atentos a uma série de detalhes – o funcionamento dos ventiladores, a entrada de algum desconhecido, o celular que toca, a criança que chora. Se alguém sente-se mal durante a reunião, cabe a eles providenciar o socorro imediato. São os diáconos, pessoas escolhidas dentre os membros da igreja para exercer um ofício que requer muita disposição, espiritualidade e desprendimento.
Há sempre o que fazer na casa de Deus. Na hora do apelo, todos já devem a postos na plataforma para orar e aconselhar os decididos. Isso sem falar na sua clássica tarefa de distribuir o pão e o vinho durante a ceia do Senhor. Finda a reunião, todos vão embora, menos eles. É preciso recolher todo o material, deixar o templo em ordem e verificar se não há uma lâmpada a ser trocada, um banheiro que precisa de sabonete ou se os brinquedos do departamento infantil estão em ordem. O diaconato é uma das funções eclesiásticos mais prestigiados e difundidas nas igrejas evangélicas, seja qual for a linha teológica ou a forma de liturgia adotadas. A nomenclatura varia – em algumas denominações, eles podem ser chamados de obreiros ou oficiais –, assim como as atribuições e dimensões de poder. É um ministério que compete a homens e mulheres, já que cada vez mais igrejas possuem diaconisas. Mesmo com toda essa diversidade, num ponto todos os crentes concordam: os diáconos são fundamentais para o bom funcionamento da obra de Deus.
Surgido nos tempos do Novo Testamento, o diaconato foi instituído para contornar uma dificuldade na estruturação da Igreja primitiva. De acordo com o livro de Atos, logo após a morte de Jesus a pregação dos apóstolos levou milhares de pessoas à conversão, trazendo para o seio da comunidade cristã uma série de demandas espirituais e materiais. Os líderes resolveram, então, designar “homens de boa reputação, cheios do Espírito e de sabedoria” para que cuidassem do sustento da Igreja e do cuidado com os pobres, liberando os apóstolos para dedicação exclusiva à oração e ao ensino da Palavra. Mas alguns diáconos, como Estêvão e Filipe, foram muito além das tarefas estritamente práticas e até hoje são lembrados como heróis da fé.
“O diácono não deve limitar-se apenas aos serviços materiais, mas também desenvolver seu ministério fazendo uso dos dons na pregação do Evangelho de Cristo”, frisa o pastor e escritor Magno Paganelli, autor do recém-lançado Livro dos diáconos (Arte Editorial), em que aborda diversas facetas deste ministério.“O trabalho diaconal recebe maior importância quando é encontrada, na primeira carta de Paulo a Timóteo, a citação das qualificações exigidas para esses ajudadores da obra”, continua. “Ali, está dito que os diáconos devem ser respeitáveis, de uma só palavra, não inclinados a muito vinho, não cobiçosos de sórdida ganância e que conservem o ministério com a consciência limpa”, enumera.

Sempre a postos – A palavra diácono é originada do termo grego diakonos, que pode ser encontrado cerca de 30 vezes no Novo Testamento. Em todas elas, sempre ligada à idéia do serviço, geralmente no sentido de atendente ou servente. Além disso, termos conexos, como diakonia (ministério) e diakoneo (servir ou ministrar), também são citados nas Escrituras. “O termo diaconia refere-se ao serviço cristão, especialmente em sua função social ou beneficente”, reforça o pastor e pesquisador Alderi Souza de Matos, da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). “Já o diaconato, no seu sentido amplo, designa as mesmas funções enquanto exercidas por oficiais das igrejas”, ensina.
Se o termo diácono só aparece claramente definido no Novo Testamento, a prática de se separar pessoas para atuar de maneira destacada no meio do povo de Deus vem de mais longe. “Na verdade, a Igreja não criou esse ofício. Ele já era observado desde o Antigo Testamento. Conforme a descrição do livro do Êxodo, quando Deus tirou os hebreus do Egito, determinou que os órfãos, as viúvas e os estrangeiros não fossem desamparados. E vemos que é essa a função do diácono”, frisa Alderi. Mas foi só no século 3 da Era Cristã que a Igreja passou a adotar os diáconos como auxiliares e assessores dos bispos. Na ocasião, o diaconato passou a ser uma etapa em direção ao sacerdócio e assumiu um caráter mais empírico. Somente no século 16, tempo da Reforma de Martinho Lutero, é que voltou a ser recuperado o ministério de ação social no trabalho da Igreja. Calvino, outro notável reformador, tinha o ofício dos diáconos em alta consideração. Nas suas Institutas, publicadas em 1536, ele frisa que os diáconos são os oficiais da igreja devotados à assistência ao pobre, mas que deveriam também ter pleno conhecimento da Bíblia, pois no exercício de suas funções muitas vezes teriam que oferecer consolo espiritual.
É exatamente o que diz o militar Carlos Henrique Maganha de Souza, 41 anos, líder dos diáconos de uma das congregações da Igreja Missionária Evangélica Maranata, do Rio. “Precisamos estar sempre prontos para atender necessidades puramente espirituais, como a oração por um enfermo, o aconselhamento cristão e a ministração da Palavra”, enumera. Por isso mesmo, diz, o diácono é mais do que um trabalhador da obra de Deus – embora, garanta, sinta-se honrado por servir à igreja também com serviço pesado, como limpar o templo, carregar bancos e até manobrar carros no estacionamento. Henrique é daqueles que batem ponto nos cultos de domingo e durante a semana. É sempre dos primeiros a chegar e, não raro, o último a sair. Nomeado para a função há cerca de dez anos, ele diz que o cargo de diácono traz muitas bênçãos: “Mas o principal privilégio, para mim, é poder servir aos irmãos e ao Senhor.”

Tarefas espinhosas – A maioria dos crentes costuma ver no diácono uma espécie de “faz tudo” da igreja – o que, pelo que se vê, não deixa de ser verdade. Mas é claro que, por exercer uma função que lhe dá poderes sobre os outros irmãos, o diácono sempre caminha sobre o fio da navalha – ele jamais deve abusar de sua autoridade, mas também não pode se omitir, mesmo que suas recomendações não sejam exatamente agradáveis. Em tom jocoso, até um dito irreverente, corruptela de um trecho bíblico, circula por aí: “Resisti ao diácono, e ele fugirá de vós.” “O pastor precisa de nossa ajuda, pois não é capaz de dar conta de tudo que acontece na igreja” Jeová Gueiros da Gama Filho, diácono há cinco anos da Igreja Presbiteriana de Cidade Ademar, na capital paulista. “Precisamos ter muito amor para contornar problemas, inclusive os criados pelos próprios crentes.”
Ele conta que os membros da igreja costumavam parar o carro em fila dupla, atrapalhando o trânsito. Numa dessas ocasiões, pediu que um deles estacionasse mais adiante. “Para minha surpresa, ele não só me ignorou como permaneceu no local”, queixa-se Jeová. “Essas situações acontecem com freqüência, mas tento lembrar que estou aqui para servir”, resigna-se. “É isso que me conforta.” Já na Primeira Igreja Batista do Rio de Janeiro, o exame de membros submetidos às comissões de ética ou disciplina também cabe aos diáconos. Mario Linhares, coordenador do ministério diaconal, diz que as maiores dificuldades estão relacionadas a essa área. “São casos delicados em que temos que disciplinar algum irmão.” Nessas ocasiões, destaca, as palavras devem ser de bom senso para não ferir suscetibilidades. O diácono Mario conta que, certa vez, foi destratado publicamente por um membro da igreja que teve a recomendação de exclusão aceita. “Tive que agir com bastante calma para esvaziar a situação”, lembra.
“Se o próprio Senhor Jesus serviu, colocar-me na mesma posição que ele é a coisa mais linda que posso fazer”, declara, por sua vez, Antônio de Freitas Martins, um dos 450 obreiros que compõem o Corpo Diaconal da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte (MG). Aos 77 anos de idade e 20 de ministério, ele permanece bastante ativo, dando conta de muitos afazeres na obra – inclusive o preparo da Ceia, que ele faz na própria casa. O trabalho envolve dezenas de pessoas, já que é preciso pão e vinho suficientes para os quase 28 mil membros da igreja. “O diácono não escolhe este ministério, mas é Deus quem o chama para o trabalho”, pontifica. Antônio, claro, já passou por dificuldades que levaram-no até a pensar em desistir do cargo. Mas hoje, orgulha-se do que faz e garante que continuará no diaconato até o fim da vida. “Com Cristo no comando, tudo fica mais fácil”, recita. A Igreja da Lagoinha, por conta de seu gigantismo, precisa treinar seus diáconos para tarefas específicas. Peter Lucky, o presidente do Corpo Diaconal, diz que lá são ministrados vários cursos para o candidato. “Ensinamos matérias básicas nessa preparação, como curso básico para diáconos, trabalho em equipe, diretrizes para plantões etc.”
Se o serviço diaconal empolga o veterano Antônio, também é um estímulo para obreiros mais jovens. Rafael Chinaglia Leite, 22 anos, é diácono da Igreja Apostólica Renascer em Cristo há dois anos. Ele freqüenta o templo sede da denominação, no centro de São Paulo. “Vejo meu trabalho aqui como parte fundamental do crescimento e do bom andamento da obra”, diz, cheio de disposição, não só para o trabalho material: “Há muito crescimento espiritual no diaconato”, destaca. Apesar da juventude – traço comum de boa parte da membresia e da liderança da Renascer –, Rafael demonstra exata noção do papel que lhe cabe. “A ênfase do nosso serviço ministerial é mais voltado para a logística e adminstração da igreja.” Além das reuniões no templo, ele atua também no chamado Expresso Solidariedade, que utiliza um ônibus para levar comida e ajuda aos moradores de rua. Na Renascer, a responsabilidade por este trabalho cabe aos diáconos. “Fico muito feliz ao ver vidas transformadas através do nosso trabalho”, comemora Rafael.

Diversidade – Se, durante muitos anos, o cargo de diácono era exclusividade de homens, de uns tempos para cá isso tem se flexibilizado. Hoje, são poucas as igrejas que não aceitam o serviço feminino no ministério diaconal. Embora não haja, no Novo Testamento, precedente bíblico de mulheres que tenham exercido a função – como lembra o pastor Alderi Matos, da Igreja Presbiteriana, que não as nomeia para funções de liderança por entender que elas não devem exercer autoridade sobre o homem –, cada vez mais grupos evangélicos têm diaconisas. Uma das pioneiras foi a Igreja Metodista. “O número de irmãs neste ministério é bastante significativo em nosso meio”, informa João Alves Filho, presidente do Colégio dos Bispos Metodistas do Brasil.
Na denominação, as diaconisas são designadas para os serviços das mulheres. “São elas que ungem, acolhem e instruem as mulheres na liturgia batismal, visitam-nas e as assitem na doença, dedicando especial atenção às idosas”, continua o bispo. Bem preparada para o ofício é uma qualidade que define a diaconisa Eliseth Pereira Cardoso, da Igreja Metodista, denominação onde o cargo de diácono requer diversos pré-requisitos, seja o obreiro homem ou mulher (ver quadro). Atualmente, ela dirige uma congregação na periferia do Recife (PE), uma região de muita carência. “Recebemos preparo adequado para ministérios especiais, como o trabalho social, pastorais carcerárias ou indígenas e até funções pastorais.” Com 43 anos de Igreja Metodista, Eliseth já atuou em diversas dessas áreas. “O trabalho de um diácono pode ser o mais variado possíveL”, aponta.
O pastor Luis Carlos Pinto, presidente nacional do diaconato da Igreja do Evangelho Quadrangular (IEQ), defende o espaço das mulheres no serviço diaconal. “Não há porque discriminá-las sob o ponto de vista bíblico, já que Jesus valorizou demais o papel feminino na sua obra.” Ele vai além, afirmando que determinados trabalhos, devido à sua natureza mais sentimental – como o aconselhamento, o amparo a famílias em crise ou pessoas doentes –, podem ser melhor exercidos por diaconisas. “As igrejas que têm se mantido obstinadamente contra o trabalho da mulher cristã, sobretudo no diaconato, têm perdido muito mais do que se imagina.” De fato, a Bíblia é pródiga em citar mulheres que auxiliavam o próprio Jesus, tanto nas necessidades materiais, como nas tarefas de seu ministério. Paulo, em sua carta aos romanos, faz comentários elogiosos sobre Febe, mulher a quem recomendou pela sua participação e serviços à Igreja.
Diversas denominações também não impõem restrições quanto ao estado civil de quem será escolhido para o diaconato. Fredson Melo Silva, 33 anos, é solteiro e exerce o ofício na Assembléia de Deus Nipo-Brasileira, em São Paulo. Bastante ativo na obra de Deus, foi sua dedicação à igreja que levou os pastores a indicá-lo, há cinco anos. Ele acha que o cargo traz uma responsabilidade que é benéfica na vida do crente. “A posição de autoridade sobre outras pessoas leva-nos a cuidar melhor de nossa vida espiritual”, argumenta. “Mas o diácono também precisa ser submisso, prestando obediência aos que estão levantados sobre ele”, destaca. Ele é um dos 200 diáconos da igreja, que realiza, aos domingos, três cultos simultâneos para poder atender aos mais de 1,5 mil membros. “Há muito o que fazer”, diz. Entre suas tarefas, Fredson presta serviços práticos como a introdução das pessoas, o atendimento ao pastor e diversos outros visando o bom andamento dos cultos. “Às vezes, também lidero grupos de oração e, se convidado, até prego a Palavra.”
Entre os assembleianos, o diaconato é tido como uma etapa na hierarquia eclesiástica – se for considerado apto pela liderança, o diácono pode ascender a evangelista e até ao pastorado. Quanto a isso, Fredson mostra-se tranqüilo: “Se formos fiéis no pouco, Deus nos dará muito mais”, encerra.

Diáconos e heróis da fé
Estêvão, personagem do Novo Testamento, é considerado, com justiça,o pai dos diáconos. Ele foi um dos primeiros homens escolhidos pela liderança da Igreja primitiva para cuidar das necessidades do povo – ou “servir às mesas”, para usar a expressão bíblica. A curta história de Estêvão está narrada no livro de Atos. Pouco se sabe sobre sua vida anterior à ordenação ao diaconato, mas o que chama a atenção é que, segundo as Escrituras, ele era um homem cheio do Espírito Santo, piedoso e conhecedor da Palavra de Deus.
Designado ao diaconato junto com outros seis homens – Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau –, Estêvão não tinha limitações no seu serviço. Era também um pregador eloqüente e fazia “prodígios e grandes sinais entre o povo”, conforme o capítulo 6 de Atos. Foi justamente pelo zelo evangelístico que atraiu contra si feroz oposição. Uma de suas mensagens sobre o Reino de Deus acendeu a fúria dos ouvintes, que, confrontados com seu pecado, resolveram matá-lo por apedrejamento. Em seu martírio, Estêvão teve uma visão do céu, com Jesus de pé, à direita do Pai. O diácono morreu clamando o perdão de Deus a seus algozes, entre os quais estava Saulo, que mais tarde e se tornaria o mais célebre dos apóstolos.
Outro diácono do Novo Testamento, Filipe, também não se limitou às tarefas do dia-a-dia da Igreja. Homem consagrado a Deus, ele foi orientado pelo Espírito Santo a seguir pelo caminho que ligava Jerusalém a Gaza. Na estrada, aproximou-se correndo de caravana de um alto oficial etíope, eunuco, que lia um trecho do livro de Isaías sobre Jesus. Convidado pelo etíope – que, segundo a Bíblia, era um homem importante a ponto de administrar os tesouros de sua rainha –, subiu ao carro e, usando como base as palavras do profeta, pregou o Evangelho com tamanha unção que ele creu e quis ser batizado ali mesmo, à beira do caminho. Após descerem à água, Filipe foi miraculosamente arrebatado, deixando o eunuco maravilhado com o poder de Deus.

Um ofício, muitas funções
Embora seja adotado por praticamente todas as igrejas evangélicas, a natureza e as atribuições do ofício diaconal variam muito de denominação para denominação. Uma das mais rigorosas quanto aos critérios de escolha e capacitação destes obreiros é a Igreja Metodista do Brasil. Lá, o aspirante deve ter ensino médio ou superior, formação de acordo com o Plano Nacional de Educação Teológica da denominação e passar dois anos em período probatório. Depois disso, só pode ser consagrado após passar por um exame do Concílio Regional e ser indicado pelo bispo responsável. A função, aberta às mulheres, é exercida por dois anos, na esfera regional, ou por cinco, caso seja de âmbito nacional, e pode até ser remunerada – geralmente, uma ajuda de custo para a execução de determinados serviços.
Já na Igreja Presbiteriana do Brasil, cabe ao diácono zelar pelo bom funcionamento da congregação e pelas tarefas de assistência social. Antes da consagração – rito realizado durante um culto solene, mediante a imposição de mãos dos líderes –, os candidatos passam por uma análise do Conselho da igreja local, composto pelos pastores e presbíteros. Após este período de observação, uma assembléia de membros vota pela aprovação de cada nome. O trabalho é totalmente voluntário e o mandato, que dura cinco anos, pode ser renovado através de nova eleição. Apenas os homens podem exercer o ofício, e há cerca de 13 mil diáconos presbiterianos no Brasil.
De linha pentecostal, a Igreja do Evangelho Quadrangular reserva aos seus diáconos – são mais de 54 mil homens e mulheres em todo o país – múltiplos encargos. Eles são assessores diretos do pastor, servindo à comunidade em diferentes áreas, que incluem administração, educação cristã, ação social, evangelismo, visitação a enfermos e até celebração de cultos. A indicação se dá a partir de um convite da liderança àqueles membros que mais se destacam. Uma vez indicado, o candidato deve ficar um ano como cooperador do corpo diaconal. Os nomes são confirmados em assembléia geral da igreja local e empossados em um culto especial. Em seguida, o novo diácono recebe um brasão distintivo e um uniforme para o trabalho. Na IEQ, a ordenação do diácono é vitalícia, mas cada um deles assina um termo de voluntariado. Cabe às coordenadorias acompanhar o trabalho realizado pelos diáconos.
Uma das mais organizadas confissões evangélicas, a Igreja Batista realiza, periodicamente, seminários e congressos de preparação e aperfeiçoamento reunindo seus diáconos, através da Associação dos Diáconos Batistas do Brasil e das associações estaduais e regionais ligadas à Convenção Batista Brasileira. Como em quase todas as igrejas, o candidato a diácono batista submete-se a um período de experiência após ser indicado pelo Conselho local. Durante este prazo, que pode ter duração variável, o aspirante precisa demonstrar aptidão para o trabalho social e o ensino cristão, duas áreas muito valorizadas no meio batista. .Também cabe ao diácono prestar assistência aos novos membros. Mas não há pré-requisitos quanto à educação formal nem período definido para o mandato, cujo ponto de partida é um culto festivo em que toda a congregação ora e consagra seus novos oficiais.